segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma valsa triste ou um tango argentino...

Ela acabara de assistir ao seminário sobre sua autora preferida. A alma transbordava de euforia, êxtase. Essa já mencionada felicidade clandestina. Dirigiu-se à renomada biógrafa com a intenção de um autógrafo. Eis que o conseguiu. Entrou no elevador e todos os seus pensamentos se elevavam. O silêncio reverberava dentro dela, fazendo tilintar suas ânsias secretas, seus sonhos obscuros. Ela voava.

Abraçada ao livro, caminhou em direção à saída. Lá fora, na calçada, o vento forte a apanhou de assomo. E num átimo de segundo, desses instantes inusitados e efêmeros que seguramos pela mão, ela se encheu de tristeza. Ela não sabia explicar. Ela apenas sentia.

Sentou-se calmamente no banco da praça. O vento ainda soprava forte. E frio. No céu, as primeiras estrelas apareciam. Anoitecia. E dentro dela já era noite. Ela se sentia incomodada. Não era o vento, não era a noite, não era a praça. Certos descontentamentos lhe inebriavam os sentidos. Ela experimentou um frio lhe percorrendo o corpo: a espinha, os joelhos, a boca do estômago.

Decidiu telefonar para ele. Ela pensava em cinema, refrigerante, amor. Essas pequenas cotidianices lhe prometiam felicidade efêmera. Ela lhe chamou para compartilhar isto. Ele recusou. Melhor seria manter a distância entre eles. Ele a julgava nociva. Entregar-lhe a alma, mostrar-lhe bons sentimentos o tornaria vulnerável, a ela e ao velho relacionamento, já tão maltratado.

Ela saiu da praça meio perdida, tentando assimilar as duras palavras dele. O som de buzinas se misturava com o colorido dos faróis e semáforos. O vento balançava as folhas novas das árvores centenárias. E os pingos de chuva recém caídos do céu se misturavam com suas lágrimas, brotadas de uma face já abatida.

Segurando o caderno contra o peito, não ouvia mais os sons angustiantes da cidade. Não havia velocidade. E tudo se perdia entre esquinas, ônibus e bancas de revista. Seus passos se apressaram nas calçadas; era necessário chegar logo. Não se sabia onde, mas era imprescindível que fosse logo.

Distraída entre becos e soluços, não ouviu o som familiar, não viu a aflição no rosto dos transeuntes ao atravessar a rua. Dentro dela, apenas um silêncio paralisante. Ela finalmente estava livre.

Milena Bandeira

11 de dezembro de 2010

Um comentário:

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com