domingo, 18 de abril de 2010

POEMÁRIO

I

( a caixa )

consegui guardar dentro dessa caixa
um pouco de lucidez.
guardo como um último pertence,
fruto de anos de contemplação.
lá fora...
lá fora eu tranquei a loucura.
com seus gritos estridentes
e seu cheiro de novo.
e consigo vê-la na sua dança insinuante,
na sedução repentina de um instante fugaz.


II

( não caber )

a saudade não cabe em uma palavra
nem no quarto que se torna cada vez maior
tão pouco nas ruas largas de minha metrópole
a saudade se tornou maior que o suportável


III

( recado do enamorado )

hoje lhe desejo poemas, minha musa...
como quem recolhe flores a dar a um beija-flor
como o girassol dando bom dia ao astro
como a eutanásia que sorri quando vê a morte
hoje lhe desejo...
como as palavras que nunca foram ditas
apenas sentidas na alma
(diante da ingenuidade de tantos)


IV

(do nascimento da poesia)

a poesia vai embora...
ela surge
diz oi
e foge
como quem é livre demais para se comprometer
se na hora não tivermos em mãos caneta e papel
selar o compromisso a fino ferro
tudo acaba
é gigante demais pra ser presa
pra ser apenas
ela nos trai
de boca em boca
quase assim que nasce
logo após a escrita
a poesia é a mais desejada prostituta do mundo

Márcio Araújo

2 comentários:

josé leite netto disse...

cara, esse teu poema é um achado. Belissimo!

Paty Lopes disse...

Nossa...
Sobre esse teu poema só me cabe o silêncio...