quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

MEA CULPA ou Profissão de fé

ao poeta Francisco Carvalho

Semear poeiras e andrajos de esperas
dissecar os ossos das metáforas
acender espantalhos no amarelo das espigas.

Decantar o silêncio que sustenta o cais
ostentar um colar de metonímias
despir a voz da louca, cuja febre anuncia
um evangelho apócrifo.

Caminhar sob pedras como por milagre
ouvir a foz rouca dos rios da infância
borrifar no azul as flores do arco-íris.

Pintar um verão vazio de andorinhas
se encharcar de sol e devaneios
hastear um lenço sujo de saudade
ajustar os ponteiros na cópula dos pardais.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011


Retrato de uma embriaguês chamada poesia




poema
              janela velha
aberta
                 atemporal


desejo &
                singro verbos

poema reescrevo
                  ponte metálica
ao pôr-do-sol
                    ao vento
olhar negro
                  centrípeta
centri
fuga(z)

vadia noite de Iracema.






José Leite Netto

Blog > http://leiturasjoseleitenetto.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


quando o carnaval acabar




como alguém tivesse aberto uma porta
deixei passar carnavais
rastros de adereços pelo chão de espaços
compassos de baterias que passam
e soam ao estrondo da alegria
abram alas
é carnaval
meu ser confete
e
serpentina
eu, Pierrot, morrerei
por ti, Colombina,
em uma quarta-feira de cinzas.












(José leite netto - poema do livro "O Olho de Tebas)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma valsa triste ou um tango argentino...

Ela acabara de assistir ao seminário sobre sua autora preferida. A alma transbordava de euforia, êxtase. Essa já mencionada felicidade clandestina. Dirigiu-se à renomada biógrafa com a intenção de um autógrafo. Eis que o conseguiu. Entrou no elevador e todos os seus pensamentos se elevavam. O silêncio reverberava dentro dela, fazendo tilintar suas ânsias secretas, seus sonhos obscuros. Ela voava.

Abraçada ao livro, caminhou em direção à saída. Lá fora, na calçada, o vento forte a apanhou de assomo. E num átimo de segundo, desses instantes inusitados e efêmeros que seguramos pela mão, ela se encheu de tristeza. Ela não sabia explicar. Ela apenas sentia.

Sentou-se calmamente no banco da praça. O vento ainda soprava forte. E frio. No céu, as primeiras estrelas apareciam. Anoitecia. E dentro dela já era noite. Ela se sentia incomodada. Não era o vento, não era a noite, não era a praça. Certos descontentamentos lhe inebriavam os sentidos. Ela experimentou um frio lhe percorrendo o corpo: a espinha, os joelhos, a boca do estômago.

Decidiu telefonar para ele. Ela pensava em cinema, refrigerante, amor. Essas pequenas cotidianices lhe prometiam felicidade efêmera. Ela lhe chamou para compartilhar isto. Ele recusou. Melhor seria manter a distância entre eles. Ele a julgava nociva. Entregar-lhe a alma, mostrar-lhe bons sentimentos o tornaria vulnerável, a ela e ao velho relacionamento, já tão maltratado.

Ela saiu da praça meio perdida, tentando assimilar as duras palavras dele. O som de buzinas se misturava com o colorido dos faróis e semáforos. O vento balançava as folhas novas das árvores centenárias. E os pingos de chuva recém caídos do céu se misturavam com suas lágrimas, brotadas de uma face já abatida.

Segurando o caderno contra o peito, não ouvia mais os sons angustiantes da cidade. Não havia velocidade. E tudo se perdia entre esquinas, ônibus e bancas de revista. Seus passos se apressaram nas calçadas; era necessário chegar logo. Não se sabia onde, mas era imprescindível que fosse logo.

Distraída entre becos e soluços, não ouviu o som familiar, não viu a aflição no rosto dos transeuntes ao atravessar a rua. Dentro dela, apenas um silêncio paralisante. Ela finalmente estava livre.

Milena Bandeira

11 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

na despedida.

no estômago, as borboletas...
na sala, os vaga-lumes...
na garganta, o adeus.


milena bandeira

daqui, de onde me vejo sentada, com mil sonhos pendurados nos dedos...

quando eu te via, bermuda desbotada, cabelos curtos, sem relógio, sem perfume, sem pretensão, eu pensava: menino que quero para toda a vida... quando, de longe, você vinha na bicicleta verde, rosto contra o vento, anseios e saudades, violão a tiracolo, eu desejava: que esse menino realize todos os seus desejos... quando de noite, já tarde, madrugada, eu me pendurava em teu abraço nas calçadas, becos, praças, eu constatava: esse menino é de verdade... e todas as vezes que, debruçada sobre teus olhares, quis te impressionar, foi pra ser a tua menina. a menina do menino. eram mil sonhos pendurados em teus dedos e mil estrelas formando as constelações do nosso novo (tão antigo) sentimento: era amor o que me prendia nos teus braços.

milena bandeira
AS PRIMEIRAS PALAVRAS QUE EU DISSE AO ÚLTIMO HOMEM PELO QUAL ME APAIXONEI

- raisa.

- prazer.

- não, de quixadá, interior daqui.

- sempre me sinto meio ridícula dançando essas coisas.

- vamos.